Travessia Paranaguá Cananéia

Movidos pelo desejo de espalhar a paixão pela Canoa Havaiana e pela Canoagem Oceânica no litoral do Paraná, os irmãos Johnatha Vaz e Jader Vaz ousaram sonhar grande. Em novembro de 2017, eles deram vida à primeira travessia oficial de Canoa Havaiana entre o litoral paulista e o paranaense: um desafio de 120 km, ligando Cananéia a Paranaguá.

Tudo começou de forma simples — uma conversa entre irmãos logo após adquirirem suas canoas, ainda guardadas em Cananéia, São Paulo. Apaixonados pelo mar e pelo esporte, eles decidiram que a melhor maneira de trazer as canoas para o Paraná seria vivendo uma verdadeira aventura. Assim nasceu a ideia: remar todo o trajeto. E, para transformá-la em realidade, reuniram um grupo de amigos canoístas dispostos a embarcar na expedição.

Jader Vaz

Cortar as águas do Canal do Varadouro, vivenciar paisagens intocadas e realizar uma jornada desse porte sempre foi um sonho para os dois. Em 2017, esse sonho finalmente ganhou forma. “A princípio, seria uma remada de dois dias, com parada para acampar. Convidei nove amigos, e um deles sugeriu termos um barco de apoio com mais pessoas para revezar e compartilhar cada momento. O mais incrível é que, enquanto uma equipe rema, a outra descansa e aprecia o cenário deslumbrante dessa rota”, relembra Johnatha.

Veja as fotos dos anos anteriores clicando abaixo. 

A Rota Paranaguá–Cananéia

A Expedição Paranaguá–Cananéia percorre um dos trechos mais intocados e belos do litoral brasileiro. Ao longo do caminho, os participantes remam através do Parque Nacional do Superagui, uma área de proteção ambiental reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade pela riqueza de seus ecossistemas. 

Os remadores têm a chance de conhecer comunidades tradicionais que guardam a essência do litoral sul brasileiro. São lugares onde o tempo segue outro ritmo, moldado pela maré, pelo vento e pelo modo de vida caiçara — simples, forte e profundamente conectado à natureza.

A travessia revela um cenário que alterna manguezais preservados, canais estreitos, trechos de mar aberto, praias extensas e comunidades tradicionais que mantêm viva a cultura caiçara. É uma imersão em um dos últimos redutos de Mata Atlântica contínua, onde a fauna e a flora seguem praticamente intocadas.

Remar por essas águas é uma experiência de conexão profunda com a natureza: o silêncio dos canais, o ritmo das remadas, o canto das aves e a imponência da vegetação fazem parte dessa vivência única. O trajeto exige trabalho em equipe, resistência e espírito de aventura, mas recompensa cada participante com paisagens exuberantes e momentos memoráveis.

Mais do que um percurso, a Expedição é uma jornada de superação, convivência e respeito pelo ambiente que nos acolhe.

As Comunidades ao Longo do Caminho

Durante a Expedição Paranaguá–Cananéia, os remadores têm a oportunidade de passar por comunidades tradicionais caiçaras que preservam modos de vida simples, sustentáveis e profundamente conectados com o mar e a Mata Atlântica. Cada uma delas carrega histórias que se misturam ao ritmo das marés, ao som dos remos e à memória das gerações que ali construíram sua identidade.

Vila das Peças, no coração do Parque Nacional do Superagui. Casas de madeira coloridas, barcos ancorados na areia e moradores que vivem do mar formam um cenário acolhedor e autêntico. A hospitalidade caiçara se revela no sorriso fácil e na maneira tranquila com que a vida acontece ali.

Seguindo o trajeto, o grupo passa por Barra do Superagui, uma comunidade pequena, onde o tempo parece acompanhar o balanço das ondas. Ali, a cultura local se mantém viva no artesanato, na pesca artesanal e na forte relação da população com a natureza que os cerca.

Mais adiante, ao se aproximar da região que leva a Cananéia, surgem outras vilas tradicionais, onde ainda se ouvem histórias de antigos pescadores, festas típicas, lendas do litoral e crenças transmitidas de pais para filhos. Cada comunidade revela um pedaço importante da cultura caiçara: a simplicidade, o respeito pelo ambiente e o senso profundo de coletividade.

Remar entre essas comunidades é vivenciar um Brasil que resiste — um Brasil onde a natureza dita o ritmo e onde o ser humano aprende a coexistir em harmonia com ela. São encontros breves, mas que ficam gravados para sempre na memória de quem participa da Expedição.

A primeira dessas joias é Guapicu, uma comunidade pequena e acolhedora, onde a vida gira em torno da pesca, das canoas e do silêncio dos canais. Ali, as casas de madeira parecem conversar com o vento, e cada morador carrega histórias de luta e resistência ao lado da Mata Atlântica.

Seguindo adiante, o trajeto nos aproxima da mítica Ararapira, um vilarejo hoje quase engolido pelo tempo e pela força da natureza. Caminhar (ou simplesmente observar à distância) suas construções remanescentes é como folhear um livro vivo da história do litoral. Ararapira é memória pura — e, por isso, um dos locais mais marcantes da Expedição.

Logo após, surge Ariri, uma comunidade ribeirinha que mantém viva a cultura tradicional em seu cotidiano. Lá, o visitante encontra um misto raro de silêncio, saber local e paisagens que parecem pinturas. A hospitalidade é simples e sincera, lembrando que a vida no estuário tem seu próprio compasso.

Já na aproximação de Cananéia, está Marujá, uma das comunidades caiçaras mais conhecidas da região. Situada dentro da Ilha do Cardoso, Marujá é vibrante, preservada e cheia de identidade. Suas praias amplas, o modo de vida tradicional e o respeito profundo pela natureza fazem desse lugar um dos pontos altos da jornada. É onde muitos remadores sentem — de forma quase espiritual — o encontro entre esforço, natureza e recompensa.

Cada uma dessas comunidades adiciona um capítulo único à história da Expedição. Passar por elas é mais do que atravessar o mapa: é vivenciar um território onde cultura, ancestralidade e natureza caminham juntas, ensinando, inspirando e transformando quem remou até ali.